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Artigos

14/08/2013

Matando Leões

Matando Leões

Querido leitor, que você esteja bem. Recentemente encontrei um amigo que não o via há tempo. Ao interpelá-lo, soube de duas coisas que repasso agora a você.

A primeira é que o motivo pelo qual não nos víamos nos últimos anos é porque ele estava trabalhado demais. Disse que estava viajando, trabalhando dias inteiros e noites a fio. Enfim, sua vida estava se resumindo ao seu trabalho. Enquanto ele falava, pensei que talvez quando algumas pessoas focam demais só em uma atividade, como o trabalho, por exemplo, será que essas pessoas não estão fugindo de algo que mais cedo ou mais tarde vai aparecer em forma de arrependimento, doenças, acidente ou morte? O que você acha?

A segunda coisa que ele me falou e que me marcou muito, tanto é que agora falo sobre isso, é que ele me disse que, mesmo trabalhando muito, tem que “matar um leão de manhã para comer ao meio-dia, e matar outro leão a tarde para comer à noite”. Atencioso, olhava no olhar de meu interlocutor que se mexia freneticamente a minha frente. Tentava, em vão, olhar em seu olho.

E meu amigo foi além da metáfora: “E o mais triste disso tudo é que um leão a cada período já não é o suficiente para pagar minhas despesas, em alguns dias já tenho que comer de manhã o que eu deveria matar só à tarde”, adiantou-me. Mas a declaração que me deixou estarrecido naquele monólogo, onde ele só falava, é que mesmo conseguindo derrubar os leões necessários para a sobrevivência, ele me disse que não estava bem. “Esta selva está levando a minha tranquilidade, a minha alegria e até a vontade de viver”.

Ouvindo atentamente meu amigo, onde só ele falava freneticamente, o que me restava era pensar. Lembrei-me daquela propaganda de um curso de pós-graduação que arrebanhava caçadores para sua MBA, dizia que o mercado é selvagem. O problema é que muitos agendam em seu intelecto que o mercado é realmente uma selva.

A despeito a alegria do reencontro com esse meu amigo, quis muito que ele me desse uma brecha no monólogo para eu fazer uma perguntinha, só uminha. Enfim, depois de muito tempo, entre uma salivada e outra dele, consegui perguntar: “Querido amigo, diante de tudo o que me expõe, porque não deixas de comer leão?”.

De chofre, ele me respondeu com outra pergunta: “Se não matar leão, o que vou fazer?” Me deu uma grande vontade de dizer: “Vai plantar batatinha, oras”. Mas não disse, silenciei, entristeci e fiquei somente na vontade.

Lembrando que isso é assim para mim.

Beto Colombo

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