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Artigos

08/11/2013

Deserto de Flores

Deserto de Flores

Querido leitor. Em 2008 fiz uma expedição a Machu Picchu com um grupo de amigos da região. Saímos de Criciúma, atravessamos o Rio Grande do Sul, cruzamos a fronteira Brasil, Argentina, Chile até chegar ao Peru e retornamos ao Brasil pela Bolívia.

Cruzamos a fronteira e percorremos mais de 1000 km em solo argentino até cruzar a fronteira do Chile onde ficamos durante três dias no deserto mais seco do mundo. Refiro-me ao deserto do Atacama, tema desse artigo de hoje.

Ali no deserto do Atacama pude ver, sentir, um dos fenômenos climáticos mais espetaculares que jamais havia contemplado em minha existência. Aquela foi a primeira e última vez, até então, pois aquele local é único para o fenômeno.

Explico melhor: No Atacama quase não chove e entre os meses de julho e setembro a chuva aparece com 15 milímetros de precipitação. E é justamente com essa escassez de água, com essa umidade baixíssima que o milagre acontece. Do solo, antes completamente cinza amarronzado, passa a se formar um tapete com as mais variadas cores. Simplesmente belo. Indizível.

Quando eu era criança ficava vendo nossa mãe preparar o terreno para plantar rosas. Lembro que ela preparava a terra com uma enxada e colocava ali uma boa quantidade de material orgânico e muito estrume de vaca. E qual não era a minha surpresa quando meses depois naquele pequeno arbusto que se alimentava de estrumes nascia aquela, a rainha das flores, a rosa.

Para mim, aquele fenômeno inexplicável para a mente, mas lindíssimo para os olhos e também para o coração. Por muitas vezes quando eu estava em uma situação angustiante, triste mesmo, me recolhia e tempos depois daquela tristeza renascia mais maduro, pacífico e adulto.

Fazendo uma analogia de meu recolhimento com as flores do deserto do Atacama, não tem como concluir que há uma grande similaridade. No deserto, as sementes aguardam as chuvas que, dependendo da precipitação, podem dar o início de um ciclo pequeno ou grande desabrochando mais de 200 tipos de flores do deserto. Comigo não é diferente. As cinzas, as pedras, a aridez, no caso, podem ser as dificuldades, os desafios, as decepções. Agora, se enfrentadas, se acolhidas, resinificadas e regada com 15 milímetros de orvalho podem se transformar num fértil canteiro de bonitas flores.

Refletindo dessa forma, só me resta fazer uma pergunta: que deserto é esse?

Lembrando que isso é assim para mim hoje.

Beto Colombo

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